Convenção de Flávio escancara ilegalidades e ‘cisões’ na direita – Por Nonato Guedes
A convenção do PL em São Paulo que homologou a candidatura do senador Flávio Bolsonaro à Presidência da República, apesar da propaganda ufanista dos seus apoiadores, sinalizou concretamente um enfraquecimento da postulação, devido a alguns fatos que, de forma pontual, mostraram a desorganização reinante no evento. As ausências da primeira-dama Michelle, que mandou um vídeo protocolar, e do irmão Carlos, traduziram a desarrumação no “clã” desde que foi decretada a prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro, hoje em reclusão familiar. Até a semana passada, Michelle e Flávio estavam rompidos e a ex-primeira-dama afastou-se da presidência do PL Mulher, desfalcando a legenda de uma ativa militante da mobilização de direita orquestrada no país.
Procurou-se compensar o fiasco com a vinda do presidente da Argentina, Javier Milei, que não tem carisma nem identidade com o eleitorado brasileiro. A convenção escancarou práticas recorrentes do bolsonarismo, como o apelo a ilegalidades, exemplo da utilização de IA para massificar a figura do ex-presidente preso, e divisões dentro do bolsonarismo,
Críticas e alianças políticas
O “script”, em si, não fugiu à regra da falta de criatividade característica dos bolsonaristas – e, nesse sentido, a convenção abrigou discursos com menções religiosas, discursos com foco na segurança pública e críticas contundentes ao Partido dos Trabalhadores e ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, pré-candidato à reeleição. A imagem que se tentou passar foi a de que o senador Flávio Bolsonaro foi ungido pelo pai para cumprir a missão de “varrer o PT” do cenário político-institucional brasileiro, um prognóstico que contrasta com a força residual que aquele agrupamento de esquerda mantém na conjuntura, bem como a liderança de Lula como grande expoente da pregação anti-conservadora. Flávio exagerou no passionalismo, qualificando o pai como “o maior e mais injustiçado líder brasileiro, vítima da maior farsa que esse país já presenciou”.
As críticas se estenderam, naturalmente, ao Poder Judiciário, mais diretamente ao Supremo Tribunal Federal, que é tratado como “algoz” do ex-mandatário, sobretudo o ministro Alexandre de Moraes, que se projetou na investigação dos atos atentatórios à democracia verificados em 8 de janeiro de 2023 em Brasília. Mas o senador manifestou sua confiança na eleição, este ano, de um Congresso com maioria de centro-direita, com quem contaria, na eventualidade de ser vitorioso ao Planalto, para o endurecimento de leis contra criminosos e, certamente, para cumplicidade na decretação de uma anistia a Jair. Outros sintomas do enfraquecimento da campanha bolsonarista foram a chegada de Flávio à convenção sem vice definido e, também, sem alianças nacionais com outros partidos.
Nos últimos dias, o candidato do PL sentiu-se golpeado com a decisão de partidos de centro como o PP e União Brasil de liberar alianças estaduais como consequência da neutralidade na sucessão presidencial. A tendência, também, é que o Republicanos adote idêntico caminho, dando sinal verde para os palanques regionais que vierem a ser montados dependendo das conveniências em jogo.
Impacto na campanha e divisões na direita
Isto se refletirá na redução de espaços para propagação da candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência da República nos programas eleitorais gratuitos em veículos de comunicação nos Estados. A ocupação desse espaço evitaria deslocamentos de Flávio por todo o país, segundo a estratégia que estava sendo concebida nos bastidores e que a partir de agora terá que ser reavaliada para oferecer resultados mais concretos do ponto de vista da captação de votos. A ausência física do ex-presidente Jair Bolsonaro poderá, de acordo com analistas da grande imprensa, exercer efeito psicológico negativo no ânimo de militantes vinculados ao bolsonarismo e às forças conservadoras, agravada pela divisão da própria direita, que tem como pré-candidatos o ex-governador de Goiás, Ronaldo Caiado, do PSD, e o de Minas Gerais, Romeu Zema, do Novo.
Esses fatores somam um “combo” negativo de notícias para uma campanha que nasce tisnada por acusações de envolvimento do candidato Flávio com o escândalo do Banco Master.
A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro mencionou o nome do senador Flávio Bolsonaro apenas uma vez e, no vídeo, dedicou-se a exaltar o peso do contingente feminino na decisão eleitoral. Segundo exortou, dirigindo-se às mulheres presentes, “essas eleições serão decididas por vocês. São vocês que podem conquistar cada voto”.
Michelle lembrou a convenção que oficializou o nome de Jair Bolsonaro à Presidência da República em 2022 e arrematou: “Já vencemos algumas batalhas e também enfrentamos derrotas, mas não recuaremos porque Deus está conosco”. O senador Rogério Marinho, do Rio Grande do Norte, coordenador da campanha de Flávio, também apelou a referências religiosas. Disse que Flávio “vai subir a rampa ao lado do povo brasileiro e do presidente Jair Bolsonaro”.
O resumo da ópera foi mesmo que a convenção não teve o brilho nem a pompa com que era esperada pelos mais ortodoxos eleitores bolsonaristas.
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Fonte: PolemicaPB
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